Ode

"Bleu de Ciel", Kandinsky.

Quero uma praia de areia fina e fria para descansar o corpo sem risco de queimaduras. Também queria não precisar virar o pescoço para ver o mar. Deitada, que o mar viesse aos meus olhos, mar no lugar do céu. E então o céu no lugar do mar. Estrelas-do-mar logo que levantasse a noite. Estrelas cadentes voando no céu ondulante que já beijava meus pés na areia fria. Bastavam-me alguns passos para mergulhar no céu. Afogar ali seria um vôo absoluto, um lambuzar de nuvem, um vento farto. E o mar cada vez mais longe, mais inerte. Mais perto era a lua, lanço-me euforicamente sobre ela e tento me agarrar numa das pontas de marfim, mas não consigo. Deslizo eu na escuridão. Percebo que a sombra não é vazia. Não é um vazio. A sombra é repleta. A lua é minguante, mas permanece inteira. Pois que os olhos raramente captam a inteireza das coisas. Às vezes, são as coisas que decidem pelos olhos. Talvez eu devesse desconfiar mais do que vejo. E confiar mais nessa quietude dos olhos fechados. Lançaria-me no céu sem expectativas de pouso ou de repouso. Sem medo, sem futuro. E tendo-me envolvido completamente no silêncio, a alma se inspiraria em cada sensação nova e cantaria vigorosamente a nona de Beethoven, Ode à Alegria sem par, ímpar, sem final:

    (Barítono)

    Oh amigos, mudemos de tom!
    Entoemos algo mais agradável
    E cheio de alegria!

    (Barítonos, quarteto e coro)

    Alegria, mais belo fulgor divino,
    Filha de Elíseo,
    Ébrios de fogo entramos
    Em teu santuário celeste!
    Teus encantos unem novamente
    O que o rigor da moda separou.

    Todos os homens se irmanam
    Onde pairar teu vôo suave.
    A quem a boa sorte tenha favorecido
    De ser amigo de um amigo,
    Quem já conquistou uma doce companheira
    Rejubile-se connosco!

    Sim, também aquele que apenas uma alma,
    possa chamar de sua sobre a Terra.
    Mas quem nunca o tenha podido
    Livre de seu pranto esta Aliança!
    Alegria bebem todos os seres
    No seio da Natureza:

    Todos os bons, todos os maus,
    Seguem seu rastro de rosas.
    Ela nos dá beijos e as vinhas
    Um amigo provado até a morte;
    A volúpia foi concedida ao verme
    E o Querubim está diante de Deus!

    (Tenor solo e coro)

    Alegres, como voam seus sóis
    Através da esplêndida abóboda celeste
    Sigam irmãos sua rota
    Gozosos como o herói para a vitória.

    (Coro)

    Abracem-se milhões de seres!
    Enviem este beijo para todo o mundo!
    Irmãos! Sobre a abóboda estrelada
    Deve morar o Pai Amado.

    Vos prosternais, Multidões?
    Mundo, pressentes ao Criador?
    Buscais além da abóboda estrelada!
    Sobre as estrelas Ele deve morar.

Atenção: Tradução pelo Wikipedia.

A parte musical surge da palestra da manhã desse sábado, sobre "Música e Espiritualidade" em Beethoven, e de conversas breves até a estação de metrô. O restante é o de sempre.



Vladimir Kush

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